"Life feels like a midnight ride..." - SOAD

26 de abril de 2015

Opinião - "Insonho - Durma Bem"

Insonho - Durma Bem
Organizado por Valentina Silva Ferreira
Autores: Ana Luiz, Andre Pereira, Carlos Silva, Francisco J. V. Fernandes, Inês Montenegro, João Rogaciano, Miguel Raimundo, Valentina Silva Ferreira e Vítor Frazão
Edição: 2015
Páginas: 128
Editor: Estronho
ISBN: 9788564590809
Categoria: Antologia, Contos, Horror, Folclore Fantástico

Podem adquiri-lo no site da editora, na Amazon ou através da Valentina Silva Ferreira.

Sinopse:


O folclore português é nostálgico. É fado e saudade. Saudade das tardes sentados, no chão da sala, a ouvir o avô contar sobre o lobisomem. É medo e respeito. Como naquelas noites em que nos deitávamos e pensávamos no Insonho ou na Mula sem Cabeça. Falar sobre o folclore português é viajar pelo interior de Portugal e encontrar as lendas que cheiram a infância e se perderam na pressa de crescer. A antologia “Insonho – Durma bem!” pretende resgatar essas memórias; trazer ao leitor a inquietude de ser criança, outra vez, e temer as histórias destes seres tristes ou maléficos. Aqui reúnem-se as Mouras Encantadas, o Saca-Unhas, o Adamastor, o Carago, o Bicho Papão e outros numa colectânea que promete embalá-lo num sonho fantástico e cheio de magia. Mas cuidado. Eles podem aparecer… Durma bem!


Todos nós, em alguma altura da nossa vida, ouvimos contar histórias mirabolantes de seres fantásticos que castigam os meninos traquinas, as pessoas más ou os mais incautos ficando a pairar, no final, um sentido de moral. Mas e se essas histórias tiverem mesmo um fundo de verdade e esses seres forem reais?
Este pequeno livro é composto por 9 contos de autores distintos e tem como fio condutor os monstros da memória popular. Os vários contos apresentam uma abordagem mais pessoal, alguns são narrados na primeira pessoa e, por isso mesmo, conseguem envolver-nos em todos os seus meandros. Gostei bastante do seu conjunto mas irei aprofundar cada um deles individualmente porque acho que todos merecem algumas palavras.

Ao Meio-Dia, de Carlos Silva

A história do carago e do homem - Jerónimo - que um dia, e por amor, se tornaram um só ser, perseguido pelo Homem das Sete Dentaduras.
Apesar de ser um conto, folclore, os mesmos têm sempre uma mensagem subliminar de moral. Aqui o carago, ser tão malfadado e odiado pelas gentes por estragar os seus cultivos, é apenas alguém a quem a vida (ou pessoas sem escrúpulos) enganou e que teve de abdicar de tudo para salvar quem mais ama. Nem tudo o que parece é, pois há sempre um motivo para tudo o que acontece.

Duelo de Lendas, de Valentina Silva Ferreira

Neste conto encontramos os três senhores do sonho (João Pestana, Insonho e Tardo) a competirem entre si, tentando provar quem faz o melhor trabalho. No meio da adrenalina da sua aposta, acabam por ter de abandonar a pobre "vítima" à pressa, deixando para trás o saquinho com as moedas de ouro, o valor da aposta. No final, o único vencedor é o bicho Cidrão (que se diz ser a alma penada de um pastor) que, de longe, assistia a tudo.
É uma história que, apesar dos contornos míticos das lendas, consegue ser bastante original.

Na Escuridão, de Vítor Frazão

Aqui encontramos a Moura Encantada da Lagoa Escura a fazer mais uma vítima com a ajuda de alguém que, um dia, teve o azar de lhe pedir um favor, acabando por ficar "presa" a esta para toda a eternidade.
Gostei imenso deste conto pois, à medida que vamos desvendando a história, vamos sendo surpreendidos e, no final, fiquei com um gostinho a pouco, com vontade que a história continuasse.

A Voz de Lisboa, de Andre Pereira

Escrito na primeira pessoa, encontramos o testemunho de um acidente de metro, em Lisboa. Um chamamento inaudível mas poderoso, atrai centenas de pessoas à Praça do Comércio, condenando-as à morte. O Adamastor surge no Tejo, invocando as almas que, talvez, não conseguiu ceifar na época dos descobrimentos (ou ofereceria a derradeira recompensa?).
A minha veia historico-romântica faz-me crer que uma das características que une o povo português é o mar salgado que corre nas veias de cada um e foi com este sentimento com que fiquei no final deste conto.

A noite em que o Bicho-Papão encontrou Kafka no cimo de um telhado, de Francisco J. V. Fernandes

Um conto muito, muito bonito.
O aproximar da morte, que todos vemos como um bicho-papão, e o derradeiro entendimento do que é esse "bicho". A serenidade que advém dessa descoberta, recordando e reencontrando os momentos vividos de maior fragilidade mas, ao mesmo tempo, de maior conforto.
O autor conseguiu sobejamente criar um conto que nos consegue tocar da primeira à última palavra.

Sant'iroto, de Ana Luiz

Em terras de Pampilhosa da Serra, uma menina rabina ouve o seu tio contar histórias de bruxas e almas penadas que surgem se assobiarem em noite de lua cheia. A inocência da menina que, ao invés de ficar assustada com tais histórias, decide pregar uma partida aos tios.
A menina cedo descobre que as lendas e os ditos populares têm sempre uma raiz de verdade...
Um relembrar do passado que augura um pouco do futuro e que nos faz recordar a nossa própria infância.

Por sete encruzilhadas, por sete vilas acasteladas, de Miguel Raimundo

O lobisomem que foi salvo pela pastora de lobos. A história de Bento Joaquim e Sofia, dois jovens malfadados pela vida e por ditas bruxas, a quem o destino um dia juntou.
Uma história narrada por quem não quer, e não pode, esquecer que as maldições são para ser levadas a sério mas que, no final, talvez, nem tudo seja mau.

Ao Sexto Dia, de Inês Montenegro

A maldição da Mula sem cabeça caiu sobre uma mulher mal amada que fugiu do marido para casar com outro homem. Sozinha e amaldiçoada, encontra ajuda na sua irmã que se aproveita desta para "limpar" a pacata aldeia onde vivem dos que considera menos rectos. Mas "quem tem telhados de vidro"...
O twist final foi muito bem conseguido e termina o conto em grande.

Sangue, Suor e... unhas, de João Rogaciano

Encontramos aqui todos os clichés de um policial, à laia de Poirot, com direito a lupa e tudo. Nada de muito estranho, não fossem certos flagrantes ao longo da história como lanternas led e padres de  terriolas perdidas de Trás-os-Montes com IPhones...
A mistura entre o mito do Saca-Unhas e um policial (de quiosque) deixa um pouco a desejar pois o desenrolar de todo o enredo torna-se incongruente caindo, um pouco, no ridículo.

0 comentários:

Enviar um comentário

Obrigada pelo teu comentário! :)

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.

Seguidores

Também no Blogloving

Follow

Quem por cá passou

Este blogue não segue nem apoia o acordo ortográfico!
Todas as imagens e textos não feitos exclusivamente para este blogue, não me pertencem. Com tecnologia do Blogger.

Copyright © Gritos Mudos Published By Gooyaabi Templates | Powered By Blogger

Design by Anders Noren | Blogger Theme by NewBloggerThemes.com