"Life feels like a midnight ride..." - SOAD

23 de março de 2016

Porque sinto a vossa falta... porque tenho de voltar.


A vida é uma coisa estranha. E, posto isto, acho que nem valeria a pena divagar mais sobre o assunto pois todos sabem o que quero dizer...

Nunca fui uma pessoa privilegiada, nunca houve facilitismos nem constantes ajudas. Sou filha única mas nunca houve fartura, os meus pais sempre foram remediados. Nunca fui mimada, tive sempre o suficiente. E hoje é mesmo isso que sigo e quero sempre seguir na vida - nunca a mais e nunca a menos, o suficiente!
Tendo este mote, é fácil contentar-me. Paz, sossego, saber que as pessoas que amo estão bem, são os pontos principais. Tenho uma natureza inconformada, aborreço-me com a mesma facilidade com que obsesso com algo, mas tenho levado uma existência pacífica devido a esta minha dualidade.

Mas o que seria, então, a vida se não existissem imprevistos, surpresas e ondas electrizantes de nos pôr de rastos? Sim, talvez, fôssemos uma alface ou algo do género...
Como já disse, não tive uma vida difícil, mas também não foi fácil. Os momentos duros existiram e, oh como existiram!, mas sempre se aguentaram. Ultrapassa, levanta a cabeça e segue em frente. O mais estúpido? Sempre pensei que com os anos as coisas começariam a parecer menos difíceis (ah, e tal, a maturidade, a sabedoria, o calo, bla, bla)... Nop, totalmente errado, diria descabido até! As coisas não ficam mais simples ou fáceis de lidar, os problemas e as dores é que se tornam diferentes, mais complexos e, estranhamente mais presentes.
Sempre acreditei na lei da compensação, uma espécie de Karma onde por cada coisa má que te aconteça, uma boa irá compensar. Acreditava pois, um bocadinho acima ou um bocadinho abaixo, era assim que funcionava comigo. Atenção, acreditava.

De há três anos a esta parte a minha vida deu voltas e voltas de uma maneira que nem sequer imaginava possível. Nenhuma foi boa.
Nos entretantos voltei a ter algo que havia tido há muitos anos atrás, numa altura em que os astros não estavam alinhados - ataques de pânico e crises de ansiedade. Para quem nunca sentiu ou sabe sequer do que se trata, bom para vocês, e digo isto sem qualquer tipo de sarcasmo, pois é uma das piores coisas que se pode sentir. Passei mais de 1 ano a ser medicada para apaziguar a "travadinha" (sim, dei-lhe um nome) e, aos poucos fui conseguindo controlar-me até conseguir fazer o meu dia-a-dia normalmente. Até recentemente...
Vi o meu tio ficar doente e passar a fazer hemodiálise para o resto da vida.
Vi a minha avó de 84 anos ser amputada (o braço direito) devido a um sarcoma que, após 1 ano e pouco (o ano passado) decidiu voltar e roubar-lhe a vida de uma forma lenta e dolorosa; vi a minha mãe sofrer diariamente pela sua própria mãe, lutar contra o monstro invisível que habitava dentro da minha avó com toda a força da impotência espelhada nos seus olhos; vi a desumanidade, o desapego, o egoísmo e a estupidez pura em pessoas pertencentes à categoria "Família".
Depois a minha avó partiu. Aquela Mulher quieta, de ideias fixas, recta e amável, com um coração enorme e tanto amor pelos seus. A Mulher que me dava a mão para eu conseguir adormecer no berço, que me fazia os melhores lanches depois de chegar da escola e os quais comia com tanta satisfação sentada no sofá da sala a ver a Sailor Moon ou o Dartacão. Aquela Mulher que sempre estava lá, mesmo que nas sombras para não ser notada. A minha avó partiu e um bocadinho de mim partiu com ela.
A pouco e pouco a normalidade foi-se instalando. De dia para dia a o aperto no peito ia-se atenuando e o pensamento de que já não existia dor nem sofrimento acalmava, de certo modo, a minha tristeza. Mas, por mais tempo que passe, sempre que entro em casa da minha avó e olho para o lugar onde ela se sentava no sofá ou à mesa da cozinha sem a encontrar, as lágrimas toldam-me a vista. Pois bem, engole e segue em frente, nada mais há a fazer.

De Junho a Dezembro foi um pulinho. Já se pensava no Natal e de como seriam as "festas", as saudades batiam só de imaginar menos uma pessoa sentada na mesa da Consoada.
E, um dia, o meu avó ficou doente. Uma gripe. Tomou os medicamentos da praxe, um xarope para a tosse que lhe andava a afligir o peito e a coisa melhorou. Uma gripe, uma simples gripe. Até ao dia em que a força para se levantar de manhã simplesmente não chegou. Direito ao hospital para se curar, não voltou a regressar a casa. Afinal a gripe não era gripe, a tosse não era de um resfriado, mas sim líquido no pulmão, derivado de um cancro. Sim, um cancro aos 82 anos, supostamente lento, mas que obrigou os médicos a mexerem mais do que deveriam e a causarem mais dor e sofrimento do que era "necessário", e que acabou por acelerar o que, supostamente, estaria "calmo".
Em Fevereiro o meu avô partiu. O avô Bigodes, aquele homem enorme que, sem sequer tentar ou saber, me abriu as portas do pensamento e da opinião, que me deu "coragem" para questionar e querer o melhor para o mundo, aquele homem que passou ao meu pai e depois a mim o testemunho das ideologias sociais e políticas que hoje defendo, pois hoje são minhas também. Aquele homem que não era muito dado a conversas ou a demonstrações de afecto - mas bastava olhar para os seus olhos ou para o trejeito do seu sorriso para ver o quanto nos amava e o orgulho que tinha de nós. Recordando este seu jeito, pegando os livros que me deixou, ouvindo a minha avó contar histórias sobre ele deixa-me sempre de coração e garganta apertados. O meu avô partiu e um bocadinho de mim partiu com ele.
Quando entro em casa dos meus avós, tenho tendência a entrar sempre pela porta da sala primeiro, pois era onde ele estaria; agora apenas encontro um sofá vazio. Pois bem, engole e segue em frente, nada mais há a fazer.

Em aproximadamente 7 meses perdi dois pilares da minha vida. A mãe da minha mãe, o pai do meu pai. E sinto-me tão egoísta pois penso neles como "meus"- "meus" avós, "meus" modelos, "meus" pais, "meu" sangue.

Ainda estou meio atordoada, meio dormente, sem querer acreditar que tudo isto aconteceu num espaço de tempo tão curto. Não sei se me sinto assim porque, apesar de tudo, já esperava este desfecho ou se estou num estado qualquer de negação que, quando menos esperar, me irá dar uma chapada de realidade deixando-me KO. É de noite, quando me deito, que a minha mente tende a divagar e recordo todos os mais ínfimos pormenores, toda a dor de ambos e dou por mim a soluçar contra a almofada tentando abafar o som do meu choro para ninguém ouvir.

E por aqui fico. Vou respirando e, lentamente, muito lentamente, começo a entrar na normalidade. Não sei o que aí vem, o que o futuro me reserva, mas sei que a criança dentro de mim, aquele ser que sempre considerei imortal e parte integrante de mim, está a começar a desaparecer. As situações não se tornam mais fáceis de lidar, apenas perdemos o filtro inocente de criança com que olhamos para as coisas, aquela fé e maravilhamento e audácia com que enfrentamos o mundo. O peso da vida já começa a deixar as suas marcas, os meus ombros já acusam pressão e as costas vão curvando, na tentativa vã de aguentar as minhas dores e as dores de quem amo. Sou ainda tão jovem e já começo a sentir o cansaço..

O mais estranho de tudo? A minha história não é nada em comparação com muitas outras. A vida é uma coisa estranha. (Ponto)

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